forumdoc_2012_07

forumdoc.bh.2012
Ruben Caixeta

Belo Horizonte recebe a décima sexta edição do forumdoc em uma ocasião muito especial e, ao mesmo tempo, dolorosa: de um lado, comemoramos os 20 anos de demarcação da maior terra indígena do Brasil, a Terra Indígena Yanomami, de outro lado, constatamos a luta desesperada dos índios Guarani Kaiowá para a sobrevivência num pequeno pedaço de terra no Mato Grosso do Sul. Queremos fazer desta apresentação um manifesto tanto a favor da luta destes índios no Brasil hoje quanto a favor da necessidade urgente de alargar nossa escuta e nossa visão (aquelas do homem ocidental) em direção ao que nos mostram e dizem os índios nos seus filmes e fora deles: para o índio a humanidade, em sua origem, foi destinada a viver e a cuidar da terra; ao contrário, o pensamento dos brancos fixa-se sem descanso nas suas mercadorias, como se fossem suas namoradas; e “nossa civilização” cava o buraco de sua própria morte ao abrir crateras atrás de minérios, ao atear fogo na floresta e transformá-la em pasto, ao fazer secar as águas dos rios onde vivem os peixes, onde bebem água os animais e nós, humanos.

Desde o seu início, em 1997, o forumdoc tem um lugar especial para a cine­matografia indígena. Não só um lugar para apresentar os filmes sobre os índios ou “dos” índios, mas para promover um debate sobre sua própria concepção de cinema e documentário, suas estratégias de realização, seus princípios éticos, enfim, mas não menos importante, sobre todo o universo fora de campo que atravessa tais filmes. Se isto é válido para outras cinematografias, aqui, no contexto indígena, torna-se uma realidade insofismável: a estética e a ética não podem ou não devem andar separadas; a “imagem” dos índios ou sobre os índios é inseparável da sua dimensão política ou ontológica. Há muito o que se falar (e opiniões divergentes) sobre o que é cinema indígena, mas há algo para nós muito claro: não se faz cinema indígena apenas buscando as belas imagens ou movimentos de câmera ou montagem bem “aparada” (de acordo com nossas – ocidentais – preferências e gostos estéticos) ou, menos ainda, por meio da exploração dos clichês e exotização dos corpos e das falas dos índios.

Na abertura do forumdoc.bh.2012 exibiremos um filme produzido coletivamente (por índios e brancos) na terra indígena Yanomami: trata-se de Xapiri. Segundo Bruce Albert, um dos realizadores, este filme foi concebido de forma totalmente experimental – construído como um tipo de simulador de voo xamânico, longe dos cânones do filme etnográfico, mas também dos filmes concebidos dentro da série “vídeo nas aldeias”. É provável que este filme – que dará muito o que pensar – não necessariamente será muito bem aceito seja por todos os Yanomami, seja pelo público ocidental. Seria possível a nós, ocidentais, experimentar através das imagens o mesmo tipo de sensação adquirida pelo xamã yanomami nas suas viagens cósmicas realizadas durante as sessões rituais? Provavelmente, não. Entretanto, tal como acontece com qualquer filme etnográfico, Xapiri nos abre a porta para melhor conhecer o xamanismo e a cosmologia yanomami, e, além disso, nos convida a participar de um tipo de conhecimento que é necessariamente sensorial, aquele que é adquirido e transmitido pelo xamã indígena.

No seu texto “A Floresta de Cristal”, Eduardo Viveiros de Castro diz que a palavra xapiripë
designa o utupë, imagem, princípio vital, interioridade verdadeira ou essência dos animais e outros seres da floresta, e ao mesmo tempo as imagens imortais de uma primeira humanidade arcaica, composta de Yanomami com nomes animais que se transformaram nos animais da atualidade.

Mas o termo xapiripë se refere também aos xamãs humanos, e a expressão “tornar-se xamã” é sinônima de “tornar-se espírito”, xapiri-pru. Os xamãs se concebem como de mesma natureza que os espíritos auxiliares que eles trazem à terra em seu transe alucinógeno. O conceito de xapiripë assinala portanto uma interferência complexa, uma distribuição cruzada da identidade e da diferença entre as dimensões da “animalidade” (yaro pë) e da “humanidade” (yanomae thëpë).

De um lado, os animais possuem uma essência invisível distinta de suas formas visíveis: os xapiripë são os “verdadeiros animais” — mas são humanóides. Isto é, os verdadeiros animais não se parecem demasiado com os animais que os xapiripë, literalmente, imaginam. De outro lado, os xamãs se distinguem dos demais humanos por serem “espíritos”, e mais, “pais” dos espíritos (que, por sua vez, são as imagens dos “pais dos animais”). O conceito de xapiripë, menos ou antes que designando uma classe de seres distintos, fala assim de uma região ou momento de indiscernibilidade entre o humano e o não-humano (principal mas não exclusivamente os “animais”): ele fala de uma humanidade molecular de fundo, oculta por formas molares não-humanas, e fala dos múltiplos afetos não-humanos que devem ser captados pelos humanos por intermédio dos xamãs, pois é nisto que consiste o trabalho do sentido: literalmente, “são as palavras dos xapiripë que aumentam nossos pensamentos.” […]

Luz, não imagens. Os xapiripë são de fato imagens (utupë), mas seus espelhos não os constituem como tal — estão do lado da pura luz. Cristais.

“Imagem” de acordo com o sentido que nós (ocidentais) lhe atribuímos, de fato, não tem nenhuma conexão com aquele sentido que os Yanomami lhe atribuem. Na verdade, a partir do momento em que, hoje, parte dos Yanomami está manuseando pequenas máquinas digitais para fotografar ou filmar, alguns deles experimentando o processo inteiro de realização fílmica, isto tudo promove um deslocamento de sentido da categoria “utupë” ou “imagem”. De fato, as imagens e os filmes são hoje vistos por boa parte dos Yanomami como objetos inquietantes que servem para multiplicar entre eles a troca de informações, que favorecem a comunicação e a troca entre distintos grupos yanomami, entre humanos e espíritos. Certamente, tal circulação de imagens (tais objetos inquietantes) fazem eco com a concepção de pessoa yanomami. De acordo com a esplêndida tese de Bruce Albert (Temps du Sangue, Temps des Cendres, p. 403), a fotografia tem entre os Yanomami uma ligação direta com o “nome e a alma de uma pessoa”. Na verdade, a fotografia representa um dos “traços” de uma pessoa, tal como também o é o nome. Por isso, ali você nunca deve pronunciar o nome de uma pessoa em referência a ela mesma, da mesma forma que não deve guardar uma fotografia de um parente.

Quando uma pessoa Yanomami morre, toda uma máquina ritual é colocada em ação pelos seus parentes consanguíneos para apagar aqueles “traços” deixados por ela quando vivia aqui na terra: sons e palavras, rastros no chão, objetos de uso pessoal, plantas cultivadas. Bruce Albert diz que os Yanomami observam e comentam interminavelmente, com um certo prazer e humor, os detalhes mais ínfimos daquelas fotografias de gente estrangeira ou parentes classificatórios. Contudo, aquelas que os representam pessoalmente ou as pessoas muito próximas, provocam imediatamente uma atitude de constrangimento: então, eles tentam por todos os meios obtê-las para guardá-las ou subutilizá-las a fim de conservá-las ou destruí-las para que não subsistam longo tempo após a morte.

Vejamos:

Fixando a identidade de uma pessoa (a singularidade de seu aspecto) e circulando fora de sua presença entre os estrangeiros, a fotografia é aqui assimilada a um nome próprio; mas um nome tanto quanto mais perigoso pelo fato dele não ser uma simples sinédoque mas uma verdadeira réplica em miniatura do indivíduo (ou estar associado à sua imagem vital) e dele constituir um “traço” material e não simplesmente uma mnésica. É por isso que, apesar dela constituir o análogo do nome do indivíduo, a fotografia de uma pessoa é mais frequentemente já tomada como um nome da morte potencial, a qual teme-se, por antecipação, a permanência.

Nesta brevíssima discussão sobre qual é a noção de pessoa, morte, espírito e fotografia entre os Yanomami, podemos antever o quanto é complexo o uso e a interpretação que se pode fazer do filme (e da imagem) entre e sobre um povo indígena: a questão vai necessariamente muito além (e num certo sentido contrário) ao uso e ao sentido que nós (ocidentais) damos à fotografia, à memória (e, portanto à vocação da imagem fotográfica como suporte de um referente ou de um ente querido), enfim, à relação entre vivos-mortos e entre humanos-animais-espíritos.

***

Nos últimos dois meses fomos sacudidos e chocados por imagens e palavras vindas do Mato Grosso do Sul: de um lado, a terra como um “ente vivo” e que merece respeito e cuidado pelos humanos; do outro, a terra como objeto a ser usado e transformado em mercadoria pelo homem. Sigamos, numa escrita paralela, os fragmentos da cronologia deste confronto de práticas e visões de mundo sobre a ocupação da terra – visões que não deixam de estar por trás, por um lado, do uso da violência pelos colonizadores para expropriar a terra indígena e, por outro, da resistência pacífica dos índios.

• No seu blogue “Taqui pra ti”, publicado em 28 de outubro de 2012, José Ribamar Bessa Freire conta-nos que os Guarani, no primeiro século da era cristã, saíram da região amazônica, onde viviam, e caminharam em direção ao sul do continente. Dois mil anos depois, um italiano, nascido em 1948, em Toscana, atravessou o oceano Atlântico com sua família, veio para Porto Alegre, de lá para Curitiba, se naturalizou brasileiro e se instalou, finalmente, do Mato Grosso do Sul, onde encontrou os Guarani, que lá viviam há quase dois milênios: o italiano, André Puccinnelli, recém-chegado se tornou governador do Estado em 2007.

• A partir do ano de 1915 os índios do Mato Grosso do Sul começaram a ser reduzidos em pequenas reservas pelo Estado brasileiro, através do Serviço de Proteção ao Índio (SPI), com vistas a disponibilizar suas terras para o avanço das frentes de colonização pastoril e agrícola. Tal como o governador André Puccinnelli, os fazendeiros, pecuaristas e agronegociantes que chegaram no Mato Grosso do Sul e ocuparam as terras dos índios eram, na sua maioria, provenientes dos estados do sul (RS, SC e PR). O confinamento dos guarani em pequenas reservas se intensificou nos anos de 1970, alguns deles foram parar em acampamentos em beiras de estrada, outros se dispersaram no meio dos brancos ou em terras estrangeiras, enquanto aumentaram as fazendas de gado, plantações de cana, soja e outras lavouras de grande extensão.

• Numa carta de 17 de março de 2007, os professores e líderes Kaiowá disseram: “O fogo da morte passou no corpo da terra, secando suas veias. O ardume do fogo torra sua pele. A mata chora e depois morre. O veneno intoxica. O lixo sufoca. A pisada do boi magoa o solo. O trator revira a terra. Fora de nossas terras, ouvimos seu choro e sua morte sem termos como socorrer a Vida.” E um aluno guarani de José Ribamar Bessa, ao entrevistar um velho guarani da aldeia de Cantagalo, ouviu o seguinte depoimento: “Esta terra que pisamos é um ser vivo, é gente, é nosso irmão. Tem corpo, tem veias, tem sangue. É por isso que o Guarani respeita a terra, que é também um Guarani. O Guarani não polui a água, pois o rio é o sangue de um Karai. Esta terra tem vida, só que muita gente não percebe. É uma pessoa, tem alma. Quando um Guarani entra na mata e precisa cortar uma árvore, ele conversa com ela, pede licença, pois sabe que se trata de um ser vivo, de uma pessoa, que é nosso parente e está acima de nós”.

• Os índios Guarani Kaiowá têm sofrido na pele a violência. Os números podem ser até relativizados pelos fazendeiros e pelo Estado, mas não podem deixar de nos indignar ou revoltar: segundo um relatório do Conselho Indígena Missionário (CIMI), entre 2003 e 2010 foram assassinados 452 indígenas no Brasil, destes, foram 250 somente no Mato Grosso do Sul. Segundo o Mapa da Violência, elaborado pelo Instituto Sangari e pelo Ministério da Justiça, com dados relativos à década de 1998-2008, a proporção de suicídios no país é de 4,9 para 100 mil pessoas; já para o população indígena do estado do Amazonas é de 32,2 para 100 mil pessoas (seis vezes maior que a média nacional), e para a população indígena do estado do Mato Grosso do Sul é de 166 para 100 mil pessoas (34 vezes a média nacional). Entre a população jovem indígena, a taxa de suicídio é ainda mais elevada: no estado do Amazonas há 101 casos para 100 mil pessoas; e no Mato Grosso do Sul, há 446 casos para 100 mil pessoas. Para se ter uma noção da gravidade desta situação, a Organização Mundial de Saúde (OMS) considera que a taxa de 12,5 para cada 100 mil pessoas é muito elevada. Por isso mesmo, o Mapa da Violência chegou à conclusão de que os índices de suicídios dos indígenas no Mato Grosso do Sul “não têm comparação nem no contexto internacional entre os países com taxas de suicídio consideradas trágicas; não resta dúvida de que, neste campo, deveríamos ter condições de formular, de forma rápida e emergencial, políticas e estratégias em condições de enfrentar esse flagelo”.

• Enquanto tais políticas não são formuladas e muito menos colocadas em prá­tica pelo Estado, os índios Guarani Kaiowá, no desespero, enfrentam a bala e o poder político e econômico dos fazendeiros num movimento de reocupação de suas terras. A partir do século XXI, de forma mais intensa, os Guarani prepararam-se para voltar a habitar as margens de cinco rios no MS: Brilhantes, Dourados, Apa, Iguatemi e Hovy. Foi isso que aconteceu com um grupo de 170 índios Kaiowá, que ocuparam há um ano dois hectares de mata na beira do rio Hovy, perto da fazenda Cambará, município de Iguatemi de Mato Grosso do Sul, num lugar denominado por eles de Pyelito Kue-Mbarakay, que significa na língua guarani “terra dos ancestrais”. Como disse Tonico Benites, índio Guarani-Kaiowá, mestre e doutorando em antropologia pela UFRJ, “O modo tradicional de ocupação do espaço pelas famílias extensas ou comunidades guarani e kaiowá é difuso no território, morando fundamentalmente na proximidade de fontes de água boa (minas d’água, córregos, rios etc.), que permitiam o assentamento destes indígenas. Além disso, estes lugares possibilitavam o desenvolvimento das atividades pesqueiras, de caças e coletas.”

• No mês de setembro de 2012, um Juiz Federal, Sergio Henrique Bonacheia, determinou a expulsão dos indígenas da terra reocupada, alegando que não importava”se as terras em litígio são ou foram tradicionalmente ocupadas pelos índios ou se o título dominial do autor é ou foi formado de maneira ilegítima”.

• Este foi o estopim para que os Guarani Kaiowá se mobilizassem e escrevessem uma carta, que teve ampla circulação nas redes sociais, na qual declaravam o desejo de resistência e, ao mesmo tempo, escancaravam quais eram as intenções da “nossa” justiça e do nosso tipo de sociedade hegemônica: se de fato era para expulsá-los de suas terras, marginalizá-los em alguma beira de estrada, considerá-los irrelevantes ou obstáculos ao “progresso e ao desenvolvimento”, então que os fazendeiros e a justiça assumissem sua real face, sua violência, seu desprezo para com os indígenas. Duas passagens desta carta:

1. “(…) avaliamos a nossa situação e concluímos que vamos morrer todos mesmo em pouco tempo, não temos e nem teremos perspectiva de vida digna e justa tanto aqui na margem do rio quanto longe daqui. Estamos acampados a 50 metros do rio Hovy, onde já ocorreram quatro mortes, sendo que dois morreram por meio de suicídio e dois em decorrência de espancamento e tortura de pistoleiros das fazendas. Moramos na margem deste rio Hovy há mais de um ano, estamos sem assistência nenhuma, isolados, cercado de pistoleiros e resistimos até hoje. Comemos comida uma vez por dia. Tudo isso passamos dia a dia para recuperar o nosso território antigo Pyelito kue-Mbarakay”.

2. “(…) ali estão o cemitérios de todos nossos antepassados. Cientes desse fato histórico, nós já vamos e queremos ser mortos e enterrados junto aos nossos antepassados aqui mesmo onde estamos hoje, por isso, pedimos ao governo e à Justiça Federal para não decretar a ordem de despejo/expulsão, mas solicitamos para decretar a nossa morte coletiva e para enterrar nós todos aqui. Pedimos, de uma vez por todas, para decretar a nossa dizimação/extinção total, além de enviar vários tratores para cavar um grande buraco para jogar e enterrar os nossos corpos. Esse é nosso pedido aos juízes federais”.

• Depois desta mobilização, a ordem de despejo foi cancelada ou adiada. O governo corre de um lado para o outro tentando não deixar a violência “manchar” sua imagem. Claro, não se discute ou vislumbra tocar nos pontos essenciais que permite tal violência: que é o modelo de desenvolvimento em curso, a estratégia de exportação de bens primários (dentre outros, soja e minérios), e, nesta lógica do crescimento acelerado, para fazer dos país uma potencia mundial ou, melhor, para incluir o Brasil na órbita central do sistema capitalista e financeiro mundial, é preciso “desentravar” terras ocupadas pelos índios, quilombolas, ribeirinhos, ou por todos aqueles que não estão dispostos a se render a qualquer custo ao mercado ou a transformar suas terras, águas, rios e florestas em lagos para hidrelétricas, em plataformas de exploração de minério, em pastos para bois ou lavouras de cana de açúcar e soja, enfim, em tudo isso que os grandes grupos e oligopólios nacionais e internacionais estão obcecados em “explorar” – e para isso investem todo seu poder onde for necessário: desde o sistema político local até o sistema judiciário, os ministérios das Minas e Energia, do Transporte, da Agricultura. Enquanto isso, o governo pretende “apagar as marcas” da violência do sistema capitalista-desenvolvimentista ou acalmar os movimentos de base e minoritários ao conceder migalhas financeiras e de poder àqueles órgãos responsáveis por proteger e fazer respeitar os grupos minoritários e os direitos difusos: Funai, Fundação Cultural Palmares, Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial.

• Enquanto isso, os ruralistas e mineradores apertam o cerco à terra dos índios e ameaçam seus direitos conquistados: dizem, “não precisamos consultar os índios para explorar suas terras”, “não podemos abrir mão das riquezas minerais depositadas no solo das terras indígenas”, “precisamos da terra deles para alargar nos lavoras de soja e pastos de soja”. Para isso, para defender o seus próprios interesses, os latifundiários e empresas mineradoras se aliam a uma certa esquerda caduca e erguem a bandeira da época da ditadura militar: acusam os índios e seus aliados dos movimentos sociais e ambientalistas de estarem a serviço de uma conspiração internacional contra a soberania da nação! Numa estratégia bem construída e cínica, calam-se em relação às grandes multinacionais das sementes e defensivos agrícolas, da exploração mineral. Dizem, as terras indígenas somam 12 ou 13% do território nacional. Omitem que a maior parte destas terras indígenas está localizada na Amazônia, em região de difícil acesso (e, por enquanto, inacessível à exploração mineral e agrícola), e que, para todo o resto do país, apenas 1,5% das terras foram demarcadas para os índios, sendo que, no Mato Grosso Sul, onde vive boa parte dos Guarani Kaiowá, por exemplo, o território demarcado para os indígenas representada apenas 0,4% da superfíe do Estado.

• A fome dos ruralistas pela terra não tem limite – seu apetite é insaciável. Depois da tragédia anunciada pela carta dos índios Guarani de Pyelito Kue-Mbarakay, a representante maior dos ruralistas, Presidente da Confederação Nacional de Agricultura (CNA), assim escreveu (Folha de S. Paulo, 03/11/2012):”É simplificação irreal e equivocada resumir o drama pelo qual passam os 170 índios da etnia guarani-kaiowá a uma simples demanda por terra. […] Falar em terra é tirar o foco da realidade e justificar a inoperância do poder público. […] Mais chão não dá a ele [ao índio] a dignidade que lhe é subtraída pela falta de estrutura sanitária, de capacitação técnica e até mesmo de investimentos para o cultivo.” Como disse o nosso amigo Henyo Barreto, não deixa de ser impressionante como o argumento dos ruralistas é expropriatório: a terra é uma questão e necessidade para eles, não para os índios. Mais do que isso, a Senadora Abreu está convicta que os “empreendedores do setor agropecuário” são vítimas: “ocorre aí uma expropriação criminosa de terras produtivas, e o fazendeiro, desesperado, tem que abandonar a propriedade com uma mão na frente e outra atrás”. E faz uma ameaça: “Se for da vontade do governo e do povo brasileiro dar mais terra ao índio, que o façam. Mas não à custa dos que trabalham duro para produzir o alimento que chega à mesa de todos nós”.

• Dito sem sofismar, o que a ruralista está querendo é que os seus pares sejam indenizados se porventura a terra que eles ocuparam dos índios for revertida para o uso dos índios. E, lógico, não pronunciam uma palavra sequer sobre a indenização aos índios pelas mortes, expropriação, migração forçada e tantas outras sequelas que lhes foram deixadas pelo “empreendedor” agrícola com a conivência do Estado.

• Quando escreveu no seu blogue de 28 de outubro de 2012, aqui comentado, talvez Bessa Freire não imaginasse que estava indo além da metáfora quando disse que a relação que o índio tem com a terra é uma relação de “cuidado” como se cuida de uma flor, enquanto que a relação engendrada pelo colonizador ocidental com a terra é pensada numa analogia ao estupro: que deve ser “desbravada”, “desflorada”, “penetrada”. A reportagem do UOL, no dia 05 de novembro de 2012, ouviu de uma índia guarani de 23 anos, da aldeia Pyelito Kue-Mbarakay, que, no final de outubro de 2012, foi coagida por oito pistoleiros para que ela os levasse até os líderes indígenas, e, como se negou, foi vítima de um estupro coletivo.

• Enquanto isso, no dia 02 de novembro de 2012, no Acre, a Polícia Civil prendia Assuero Doca Veronez, acusado de fazer parte de uma rede de prostituição infantil. Assuero é nada mais do que o presidente da Federação de Agricultura e Pecuária do Estado do Acre e atual vice-presidente da poderosa Confederação Nacional da Agricultura (CNA), liderada pela senadora Kátia Abreu. A polícia gravou, com autorização judicial, mais de 2,8 mil horas, as quais revelam uma rede intricada de exploração sexual de mulheres, dentre elas meninas entre 14 e 17 anos, sendo que alguns envolvidos chegavam a oferecer mais de R$ 2 mil para manter relação sexual com virgens. No dia 05 de novembro de 2012, por determinação do desembargador Francisco Djalma, oficiais de justiça cumpriram mandados de soltura em favor do pecuarista Assuero Doca Veronez.

• Em julho de 2010, ao lado do ex-governador do Acre, Binho Marques (PT) e dos atuais senadores Jorge Viana (PT) e Kátia Abreu (PSD), Assuero Veronez teria dito na inauguração da sede da Federação da Agricultura do Acre: “Eu vejo as imagens da boiada do Acre correndo pelos pastos e eu sinto o meu coração estalar. Eu sinto o peito encher de orgulho e admiração pelo meu país, pelo que nós conseguimos com essa pecuária maravilhosa, construída pelo esforço único e exclusivamente dos pecuaristas do Brasil”. E, em seguida, ouviu as elogiosas palavras da amiga Kátia Abreu: “Pode existir alguém no país que conheça de meio ambiente igual ao Assuero. Nunca ninguém mais do que ele. Há 13 anos este homem luta incansavelmente para ver a legislação ambiental modificada. Quero declarar ao Acre a gratidão de 5 milhões de produtores rurais a um acreano de coração, que é o Assuero Doca Veronez”.

A título de contraponto, e para concluir nossa já longa apresentação, retornemos às palavras dos índios Guarani e Yanomami, as quais justificam porque estão preocupados com o futuro da humanidade e porque querem guardar-cuidar bem da terra que lhes foi deixada pelos ancestrais.
Tonico Benites:

Os guarani e os kaiowá têm conexão direta com os territórios específicos, consideram-se uma família só, dado que o território é visto por estes indígenas como humano. Eles possuem um forte sentimento religioso de pertencimento ao território, fundamentado em termos cosmológicos, sob a compreensão religiosa de que foram destinados, em sua origem como humanidade, a viver, usufruir e cuidar deste lugar, de modo recíproco e mútuo. Portanto, eles podem até morrer para salvar a terra. Há um compromisso irrenunciável entre os guarani e kaiowá e o guardião/protetor da terra, há um pacto de diálogo e apoio recíproco e mútuo: os guarani e kaiowá protegem e gerenciam os recursos da terra e, por sua vez, o guardião da terra vigia e nutre os guarani e kaiowá.

David Kopenawa Yanomami:

Se no centro desta cidade [em referência a Nova Iorque, quando por lá passava] as casas são altas e belas, nas suas bordas, elas estão em ruinas. As pessoas que vivem nestes lugares não têm comida e suas roupas são sujas e rasgadas. Quando andei no meio delas, me olharam com os olhos tristes. Isso me dá dó. Os brancos que criaram as mercadorias pensam que são gentes engenhosas e de valor. No entanto, eles são avaros e não têm nenhuma preocupação com aqueles que, dentre eles, são desprovidos de tudo. Como eles podem pensar ser grandes homens e se achar tão inteligentes? Eles não querem saber de nada destes miseráveis que, no entanto, fazem parte deles. Eles os jogam fora e os deixam sofrer sozinhos. Eles nem mesmo os olham, e se contentam, de longe, em lhes atribuir o nome de pobres.

[Os brancos não pensam]: Se destruirmos a terra, será que seremos capazes de recriar uma outra?. Quando conheci a terra dos brancos isso me deixou inquieto. Algumas cidades são belas, mas seu barulho não para nunca. Eles correm por elas com carros, nas ruas e mesmo com trens debaixo da terra. Há muito barulho e gente por toda parte. O espírito se toma obscuro e emaranhado, não se pode mais pensar direito. É por isso que o pensamento dos brancos está cheio de vertigem e eles não compreendem nossas palavras. Eles não fazem mais que dizer:”Estamos muito contentes de rodar e de voar! Continuemos! Procuremos petróleo, ouro, ferro! Os Yanomami são mentirosos!”. O pensamento desses brancos está obstruído, é por isso que eles maltratam a terra, desbravando-a por toda parte, e a cavam até debaixo de suas casas. Eles não pensam que ela vai acabar por desmoronar. Eles não temem cair no mundo subterrâneo. Porém, é assim. Se os “brancos-espíritos-tatus-gigantes” [mineradoras] entram por toda parte sob a terra para retirar os minérios, eles vão se perder e cair no mundo escuro e podre dos ancestrais canibais.

Nós, nós queremos que a floresta permaneça como é, sempre. Queremos viver nela com boa saúde e que continuem a viver nela os espíritos xapïripë, a caça e os peixes. Cultivamos apenas as plantas que nos alimentam, não queremos fábricas, nem buracos na terra, nem rios sujos. Queremos que a floresta permaneça silenciosa, que o céu continue claro, que a escuridão da noite caia realmente e que se possam ver as estrelas.
Vários textos e artigos nos informaram e inspiraram nesta escrita, ver especialmente:

• A floresta de cristais, de Eduardo Viveiros de Castro, disponível em:
http://amazone.wikia.com/wiki/A_Floresta_de_Cristal

• Antropólogo guarani-kaiowá analisa relação dos índios com sua terra, de Tonico Benites, disponível em: http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/posts/2012/10/27/antropologo-guarani-kaiowa-analisa-relacao-dos-indios-com-sua-terra-472239.asp

Ver também:

http://www.taquiprati.com.br/cronica.php?ident=1004
http://pib.socioambiental.org/pt/c/no-brasil-atual/narrativas-indigenas/narrativa-yanomami
http://genijogapedra.blogspot.com.br/2012/10/o-silencio-feminista-sobre-o-estupro-da.html
http://terramagazine.terra.com.br/blogdaamazonia/blog
http://editora.expressaopopular.com.br/noticia/batalha-das-ideias-ser-%C3%ADndio-em-tempos-de-mercadoria
http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2012/10/121024_indigenas_carta_coletiva_jc.shtml
http://www.cimi.org.br/pub/CNBB/Relat.pdf
http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/1179734-marcelo-leite-muita-terra-pouco-indio.shtml