Caminhando pelas decadentes ruelas da “ciudad vieja”, em Montevidéu, me deparei com essa força contínua que, por toda a parte, tenta nos convencer da necessidade de uma suposta revitalização, um suposto resgate. Lá, como aqui, e como em outros tantos lugares, empreende-se o esforço de trazer a vida, asséptica e moderna, para onde, em sua forma marginal, pulsa com intensidade. Por essas antigas passadelas, entre prédios abandonados e placas de “vende-se”, fui encontrando vestígios, gritos desgarrados que se impunham contra contemporâneas (muitas já bem velhas) formas de dominação. “Pixos”, grafites, máscaras, cartazes – que reuniam desde intervenções artístico-urbanas a convocações para lutas trabalhadoras – se espalhavam, ora de forma sorrateira, ora de maneira escancarada, por diversas superfícies do reduto histórico uruguaio. Registrei, despretensiosamente, esses rastros, impulsionado pelas recentes lembranças de lutas belorizontinas. A imagem dos “piores de belô” e das ocupações urbanas de nosso curral apresentavam-se como elo incontestável de nossa latinidade… Seguindo para a capital argentina prossegui com o pequeno exercício. Lá, sem esforço, encontrei os mesmos gestos de resistência. Dentre eles um, em especial, me chamou a atenção: um stencil aplicado em vários muros e paredes de Buenos Aires convidava à participação em um festival de cinema. O anúncio, grafado a partir de um suporte marginal, me remeteu imediatamente ao forumdoc.bh e seu impulso primeiro. A arte que apresenta a edição de 2012 do festival é fruto dessa experiência. O stencil, aplicado nas superfícies que margeiam a nossa cidade, marca no tecido urbano o gesto de rebeldia que essas escrituras carregam. Rebeldia que atravessa a própria essência do festival e o coloca como aliado e incentivador dos diversos grupos que, no dia a dia, enfrentam as mais duras e injustas batalhas. Agradeço mui especialmente às queridas amigas, Luísa Rabello e Flora Lopes, da Coisa Amarela, por darem vida a essa ideia.

Rafael Barros























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