Na sessão de Abertura do forumdoc.bh.2011, foi lida a Carta de Apoio à Comunidade Guarani-Kaiowa de Guaiviry, Municipio de Aral Moreira (MS) – Brasil.

A carta é assinada pela Associação Filmes de Quintal, por pesquisadores e profissicionais de diversas universidades e instituições de pesquisa do país, anunciando seu luto pelas mortes do cacique Nisio e o sequestro de mais três menores ocorrido no dia 18 de novembro deste ano.

Cacique Nísio

O Cassique Nísio foi assassinado por 40 pistoleiros em sua aldeia.

CARTA DE APOIO à Comunidade Guarani-Kaiowa de Guaiviry, município de Aral Moreira (MS)

24/11/2011

Amigos indígenas Guarani, habitantes originários destas terras do Brasil:

Nós, pesquisadores e demais profissionais de diversas universidades e instituições de pesquisa ou organizações civis de diversas cidades e estados do país (antropólogos, etnomusicológos, músicos, jornalistas, historiadores, indigenistas, etc), estamos de luto profundo pelo assassinato do cacique Nísio e o sequestro e possível assassinato de mais três menores ocorridos no dia 18 de novembro.

Gostaríamos de trazer a vocês a nossa solidariedade incondicional à sua luta pela recuperação das terras que lhes pertencem desde tempos imemoriais. Através dos informes de colegas e da própria mídia, estamos acompanhando de longe o que está acontecendo aí com vocês nos últimos anos e especialmente nos últimos dias, e gostaríamos que soubessem que podem contar conosco para uma denúncia ampla, firme e fundamentada dos crimes sofridos pela sua comunidade. Buscaremos as pessoas e instituições que já estão apoiando a luta de vocês para oferecer a elas o nosso apoio, e também buscaremos informar mais pessoas do Brasil e do mundo sobre essa luta.

Entre nós há pesquisadores que trabalharam com vocês, bem como com outras comunidades guarani ou outros povos indígenas do Brasil, e estamos todos muito, muito revoltados com a situação pela qual vocês estão passando. Através destes trabalhos, conhecemos a fortaleza e sabedoria de sua cultura e buscamos aprender com seus cantos e narrativas, que compõem o seu cotidiano de respeito e cuidados entre crianças, anciãos, adultos e tantos seres do cosmos. E ainda, através de seus livros, cds, e filmes, pudemos descobrir uma parcela da grandeza de sua cultura, da beleza de seus cantos, da riqueza da sua língua e suas histórias e da originalidade e força de sua arte videográfica. Reconhecemos o quanto nossos jovens têm muito o que aprender com sua cultura milenar. Não queremos mais assistir impassíveis a esta rápida propagação, em nosso país, de práticas contumazes e hediondas de perseguição e extermínio aos povos indígenas ou minoritários. Exigimos que o Estado brasileiro reconheça o direito dos povos Guarani-Kaiowa aos seus territórios, como seus donos legítimos.

Junto com esta carta, publicamos o relato de uma colega pesquisadora, que foi acolhida por sua comunidade. Publicaremos outras.

Partilhamos de seu luto e oferecemos nossa solidariedade,

Abaixo assinados, sócios da Associação Brasileira de Etnomusicologia

Relato da pesquisadora e professora doutora do Departamento de Antropologia da Universidade Federal do Amazonas, Deise Lucy Montardo:

Há um mês atrás, ao debatermos o Filme Terra Vermelha, como atividade no evento III Mostra de Arte Indígena em Florianópolis, lembro de ter me inquietado quando, no debate, surgia a expressão “metáfora” para tratar das questões ali abordadas. Infelizmente, este filme de ficção é um sensível roteiro do massacre genocida que tem ocorrido no Mato Grosso do Sul com os Guarani e Guarani Kaiowa. O filme termina com a morte de um líder indígena, por pistoleiros em camionetes, contratados pelo fazendeiro.

Qualquer morador do sul do MS com mais de cinquenta anos, sabe perfeitamente que aquela região era toda ela ocupada pelas famílias destas etnias. O governo brasileiro foi um agente importante no aldeamento destas famílias em pequenas reservas para liberar as terras para a ocupação destas por fazendas. Hoje a região é totalmente desmatada e ocupada por plantações de soja e cana de açúcar. Na pesquisa de doutorado sobre música guarani, a trajetória de vida relatada lá, de Odúlia Mendes, fala desta expulsão violência pela qual passaram todos os habitantes daquela região. Guaivyry, justamente o o tekohá onde vivia Odúlia, em sua infância, com fartura como ela recordava. Conheci esta mulher e seu marido Nísio Gomes em 1999, num aty guasu, uma grande reunião, eles estavam já mobilizados para retornarem ao seu lugar. Conversei com outros antigos moradores da região. Alguns tinham dificuldade de falar sobre o assunto devido aos traumas da violência da expulsão, ocorrida há cerca de 40 anos atrás.

Durante estes anos, eles conseguiram entrar na lista das áreas a serem objetos de GTs de identificação, processo legal que identifica e delimita a área de ocupação tradicional de modo a garantir o direito à terra destas populações.

O poder econômico e os jogos sujos no MS são tão fortes que eles conseguem fazer com que o judiciário barre os processos de identificação que estão congelados há 2 anos, apesar de terem sido iniciados os trabalhos. Os pesquisadores envolvidos nestes GTs chegaram a ser proibidos de entrar no MS.

Dia 18 de novembro, de manhã cedo, outro ataque, desta vez com requintes de exposição. Todos sabem o nome das fazendas ali envolvidas: Chimarrão, Querência e Ouro Verde.

Quando fazia minha pesquisa, e passava por Amambai, certa feita em 2001, fui convidada a sentar na mesa dos donos do hotel no qual estava hospedada para ouvir dizerem que seus amigos iriam matar os índios e as pessoas que trabalham com eles. Este é um discurso que se ouve em alto e bom tom nas cidades da região.

Fui recebida pela família de Nísio e Odúlia, na época residentes, espremidos (como se sentiam), na AI Amabai e compartilhei com eles muitas noites de cantos e danças, feitos para manter a saúde da terra e de seus habitantes.

Em 2000, Dona Odúlia era viva e Nísio era o seu companheiro. Ela discursava, com acompanhamento do seu mbaraka, sobre a solicitação de voltar com seu grupo para a sua terra e a respeito da vida difícil que eles levavam. “Nós somos pobres, agora dançamos no pátio do Sol para voltar para nossa terra, o sistema dos brancos não é bom para nós, nós estamos lhe contando.” Ela estava se referindo à minha audição, naquele momento. Apresentou então a si mesma, “ko´a há´e kacika hera há’e kuña mbo’y rendy yvyra’ija, “esta daqui é a xamã cujo nome é ajudante ‘Colar Resplandecente’”. Odúlia contou então que o Pa´i Kuara os alertou quanto à situação da terra, os alertou quanto à necessidade de terem força para lutarem para ter sua terra.

FONTE: http://www.cedefes.org.br/?p=indigenas_detalhe&id_afro=7461

Nótícia extraída de http://www.tvcanal13.com/noticias/armados-invadem-aldeia-e-matam-cacique-7715.html

O líder dos Guarani Kaiowá, cacique Nísio Gomes, foi morto na manhã desta sexta-feira (18/11/2011) no município de Amambaí, em Mato Grosso do Sul. Cerca de 40 pistoleiros encapuzados e armados invadiram o acampamento Tekoha Guaiviry e atiraram no cacique. Depois de morto, o corpo do líder indígena foi levado pelos pistoleiros.

Segundo a Fundação Nacional do Índio (Funai), representantes regionais da Funai e do Ministério do Desenvolvimento Social (MDS) estão no acampamento prestando assistência aos indígenas. Além disso, agentes das polícias Federal e Civil foram deslocados para a área do conflito e abriram inquérito policial.

Ataque a índios em MS será investigado pela PF

A área ocupada pelos Guarani Kaiowá faz parte da região denominada Terra Indígena Amambaipeguá. O processo de demarcação da terra começou em junho de 2008 e, desde então, foi interrompido diversas vezes por decisões judiciais, em ações movidas por produtores rurais da região e forças políticas municipais e estaduais.

De acordo com o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), nos últimos oito anos, cerca de 200 índios foram mortos em conflitos de terra. A assessoria do conselho informou que os indígenas ocuparam o trecho da terra que está em processo de demarcação no início deste mês.

O Ministério Público Federal (MPF) em Ponta Porã pediu a instauração de inquérito para investigar o caso. Em nota, o MPF informou que a equipe da Polícia Federal, acompanhada de representantes do Ministério Público e da Funai, confirmou o desaparecimento do corpo do cacique. Dos cerca de 60 índios que estavam no acampamento, somente dez foram contatados pelos investigadores, os demais estão escondidos na mata.

A perícia policial confirmou presença de sangue humano no local onde o cacique foi morto. Também ficou comprovado que o corpo do cacique foi arrastado pelos pist
oleiros. Um dos filhos de Nísio Gomes está no Instituto Médico-Legal de Ponta Porã, fazendo exames de corpo de delito.

Fonte: Ig

Mais informações:

http://www.amnestyusa.org/news/news-item/brazil-indigenous-leader-killed-in-armed-raid


Coleta de assinaturas

(Port.): https://docs.google.com/document/d/1AxaAiPNAU6IRkpI50Z2PTnz2o8C2Dl-T71EtMfQtmfo/edit?hl=pt_BR&pli=1

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