O cineasta Eduardo Escorel ministrará o curso Dilemas da observação (ver ementa abaixo), propondo uma discussão a partir da exibição de filmes de René Clair, Werner Herzog, K. Kieslowsky, de trechos de filmes brasileiros e da leitura de textos de Jean Epstein, E.T.A.Hoffmann e Edgar Allan Poe.

LISTA DE SELECIONADOS!

Inscrições abertas

Curso gratuito: 50 vagas
Data: de 01 a 03 de dezembro de 2011
Horário: 14h às 17h
Local: Cine Humberto Mauro/ Palácio das Artes
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Inscrições até o dia 15/11

O resultado da seleção será publicado no site até dia 25/11.

Ementa

Três indagações e uma possível resposta
O percurso da observação e a passagem para a ficção

1ª. Qual é a ruptura em relação a A Janela de esquina do meu primo, de E.T.A. Hoffmann[1], realizada em 1840 pelo narrador de O Homem da multidão, de E.A.Poe[2]?

“Com a testa na vidraça, estava deste modo ocupado em perscrutar a massa, quando de repente apareceu um rosto (o de um velho decrépito, de uns sessenta e cinco, setenta anos de idade) – um rosto que imediatamente chamou e absorveu toda a minha atenção, por causa da absoluta idiossincrasia de sua expressão. […] ‘Que história fantástica’, pensei comigo mesmo, ‘não estará escrita nesse peito!’ Me veio então um ardente desejo de não perder o homem de vista – de saber mais sobre ele.”

2ª. O que levou Dziga Vertov, na primavera de 1926, a anotar o que segue em seu diário?
“Vi Paris adormecida[3] ontem no cine-teatro Ars. Fez-me sofrer. Há dois anos tracei um plano que coincide exatamente com esse filme. Tentei seguidamente encontrar uma oportunidade para implementá-lo. Nunca me foi dada essa oportunidade. E agora – o realizaram no exterior. Kino-olho perdeu uma de suas posições de ataque. Intervalo longo demais entre
ideia, concepção e realização. Se não nos permitem implementar nossas inovações logo, podemos estar correndo perigo de inventar continuamente e nunca realizarmos nossas invenções na prática.”[4]

3ª Qual é a nova ruptura feita por Jean Epstein em O Cinematógrafo visto do Etna ao descrever a filmagem de Montanha infiel, filme perdido, realizada em junho de 1923?
“[…] Todo o poço [do elevador] era recoberto de espelhos. Eu descia rodeado de eu mesmos, de reflexos, de imagens dos meus gestos, de projeções cinematográficas. Cada volta me surpreendia de outro ângulo. Há tantas posições diferentes e autônomas entre um perfil e três quartos de dorso quanto lágrimas no olho. Cada uma dessas imagens não vivia senão por um instante, assim que percebida, perdida de vista, já outra. Só minha memória retinha uma entre infinitas, e perdia duas em cada três. E havia as imagens das imagens. As imagens terceiras nasciam das imagens segundas.”
“Cada percepção é uma surpresa desorientadora que insulta. Nunca eu tinha me visto tanto e eu me olhava com terror […] me percebendo outro, esse espetáculo contrariava todos os hábitos de mentir que eu chegara a me fazer a mim mesmo.
Cada um desses espelhos me apresentava uma perversão de mim, uma inexatidão da esperança que eu tinha em mim. Esses vidros espectadores me obrigavam a me olhar com a sua indiferença, sua verdade. Eu aparecia para mim numa grande retina sem consciência, sem moral, com sete andares de altura. Eu me via sem ilusões alimentadas, surpreso, desnudado, arrancado, seco, verdadeiro, peso líquido”.

• Para tentar responder à primeira indagação, partiremos da (a) projeção dos 10’ iniciais de Tishe! (2002), de Victor Kossakovsky. Comentaremos, a seguir, (b) o conto A Janela de esquina do meu primo, de E.T.A. Hoffmann, publicado em 1822; (c) o registro heliográfico de Joseph Nicéphore Niépce, Vista da janela do escritório, feito
em 1827; (d) o daguerreótipo de Louis-Jacques-Mandé Daguerre, Boulevard du Temple, feito em 1838; e (e) o conto de E.A.Poe, O Homem da Multidão, publicado em 1840. Exibiremos, finalmente, Da janela do meu quarto (5’, 2004), de Cao Guimarães e Aterro do Flamengo (2010, 46’), de Alessandra Bergamaschi.

• Para tentar responder à segunda e à terceira indagação, exibiremos Paris adormecida (35’, 1924), de René Clair. Tomaremos como referência para comentar o filme o texto de Annette Michelson, Dr. Crase and Mr. Clair, publicado em October, Vol 11 ( Winter, 1979). Comentaremos, a seguir, O Cinematógrafo visto do Etna, de Jean Epstein, publicado em 1926; Las meninas (1656), de Velázquez e Mão com esfera espelhada (1935), de E.C.Escher. Diante da inexistência do documentário Montanha infiel, filmado por Epstein em 1923, poderemos mostrar um trecho de Le Tempestaire, dirigido também por ele em 1947. Exibiremos, finalmente, La Soufrière (30’, 1977 ), de Werner Herzog.

• Para tentar uma resposta sintética às três indagações anteriores, avaliando os dilemas da observação exibiremos e comentaremos a versão mais longa do sexto decálogo de Krzysztof Kieslowski, Não amarás (A Short Film about Love, 83’, 1988), comparando o início e o fim com os da versão mais curta (58’, 1988), que integra a série O Decálogo.

[1] Hoffmann, E.T.A., A Janela de esquina do meu primo. São Paulo: Cosac Naify, 2010. Concluído em abril de 1822 e publicado em maio do mesmo ano, foi a última narrativa completada pelo autor, falecido em junho de 1822 aos 46 anos.

[2] Poe, Edgar Allan, O Homem da multidão. Porto Alegre: Editora Paraula, 1993. The Man in the Crowd foi publicado em 1840.

[3] Paris qui dort (1924), René Clair [primeiro filme do diretor]

[4] Michelson, Annette (ed.), Kino-Eye The Writings of Dziga Vertov. Berkeley: University of California Press, 1984. 1926, 12 de
abril, p.163.