Oficina de Teoria e Prática do Filme Documentário e Etnográfico

“Decidi virar diretor de cinema quando assisti uma sessão dupla: Nanook, of the North(1922), de Robert Flaherty, e a Idade do Ouro em um cineclube de uma pequena cidade. Foi então quando me dei conta de que o cinema não era só um divertimento mas também uma arte”.

(Aki Kaurismäki, diretor finlandês)

A oficina será ministrada por Ruben Caixeta, professor da UFMG, Pedro Portella, Ana Carvalho e Cecília de Mendonça, da Associação Filmes de Quintal, e integrará o Ciclo de Sessões Comentadas, Mesas-redondas e Debates com Adrian Cowell e Vincent Carelli, dentre outros convidados, dando ênfase à integração entre quem filma e quem é filmado. Durante uma semana, os participantes irão assistir aos filmes de Wang Bing e Adrian Cowell, ao mesmo tempo, em campo, vão experimentar algumas técnicas de abordagem, e realizar exercícios que propiciem uma reflexão  sobre a  teoria e a prática do filme documentário e etnográfico.

Quando as câmeras passam das mãos do eu (documentarista) para as mãos do outro-participante um novo mundo se abre e as possibilidades se ampliam: passamos não só a contemplar um modus vivendi diferente, mas a nos permitir um mergulho no desconhecido, a nos deixar levar pelo rio da intimidade. Uma vez em Bruxelas, em outubro de 1936, Alberto Cavalcanti, que participou ativamente da ‘escola inglesa de cinema documentário’ de 1929 a 1950, escreveu “em poucas linhas” sobre algumas coisas que não devemos fazer realizando documentários. Na última frase ele afirma que “sem experiência o documentário deixará de existir”. Somente quem preconizou tendências, quem participou ativamente da eterna busca pelo ineditismo na abordagem documental, quem encontrou “uma idéia diferente do que era fazer cinema” poderia nos fazer perceber que é preciso ir além… O documentário troca de pele como as serpentes e atravessa largos caminhos, graças a  coragem inventiva de seus realizadores. No grande labirinto de espelhos do cinema documentário refletimos nossa própria imagem mesmo quando engolimos a imagem do outro.

Inscrições abertas

Oficina gratuita com vagas limitadas

Os interessados devem enviar mini-currículo e carta de intenções para o email oficina@filmesdequintal.org.br até o dia 07/11.

O resultado da seleção será publicado no site dia 09/11.

Data: de 10 a 18 de novembro de 2009

Horário: de 09h as 12h e de 14h as 18h

Local: Fafich – UFMG

Veja a seguir um extrato do texto de Alberto Cavalcanti:

14 NÃOS  – por Alberto Cavalcanti

1 – Não trate de assuntos generalizados: você pode escrever um artigo sobre os correios, mas deve fazer um filme sobre uma carta.

2 – Não se afaste do princípio segundo o qual existe três elementos fundamentais: o social, o poético e o técnico.

3 – Não negligencie o seu argumento, nem conte com a chance durante a filmagem: quando o seu argumento está pronto, seu filme está feito; apenas, ao iniciar a sua filmagem, você recomeça novamente.

4 – Não confie no comentário para contar a sua história: as imagens e o seu acompanhamento sonoro devem fazê-lo; o comentário irrita, e o comentário engraçado irrita ainda mais.

5 – Não esqueça que, quando está filmando, cada tomada é parte de uma seqüência e cada seqüência é parte do todo: a mais bonita das tomadas fora do seu lugar é pior que a mais banal.

6 – Não invente ângulos de câmera, quando não são necessários: ângulos gratuitos são dispersivos e destroem a emoção.

7 – Não abuse da montagem rápida; um ritmo acelerado pode ser tão monótono quanto o mais pomposo “largo”.

8 – Não use música em excesso: se você o faz, a audiência deixa de ouvi-la.

9 – Não sobrecarregue o filme com efeitos sonoros sincronizados: o som nunca é melhor do que quando empregado sugestivamente. Sons complementares constituem a melhor banda sonora.

10 – Não encomende muitos efeitos óticos, nem os faça complicados: fusões, “fade-ins” e “outs” fazem parte da pontuação do seu filme. São os seus pontos e vírgulas e os seus pontos finais.

11 – Não filme muitos “close-ups”: guarde-os para o clímax. Num filme equilibrado eles vêm naturalmente; quando em demasia, tendem a sufocar e perdem toda a significação.

12 – Não hesite em tratar elementos humanos, e relações humanas: seres humanos podem ser tão belos quanto os outros animais, tão belos quanto as máquinas ou a paisagem.

13 – Não seja confuso no seu argumento: um assunto verídico deve ser contado clara e simplesmente. No entanto, clareza e simplicidade não excluem necessariamente a dramatização.

14 – Não perca a oportunidade de experimentar: o prestígio do documentário só foi conseguido pela experiência. Sem experiência, o documentário deixará de existir.

Alberto Cavalcanti, Bruxelas, outubro de 1936.