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Foto de Pedro Veneroso – Still do filme “Os Residentes” de Tiago Mata Machado


Aloysio Raulino, presente

por Junia Torres


Aloysio Raulino construiu uma carreira marcante na direção de filmes, boa parte deles tematizando as condições de vida de trabalhadores, migrantes e excluídos sociais. Ainda que centrados fortemente no potencial expressivo das imagens, seus filmes não se rendem jamais a uma contemplação distanciada e desengajada do mundo. Neles, para além da força poética dos registros, a câmera deixa sempre impressa uma margem de conflito, uma área de disputa e de tensão entre aqueles que olham e aqueles que são olhados.


Desde 2005, A. Raulino foi presença constante entre nós, no forumdoc.bh: como convidado especial, exibindo filmes, participando do júri, comentando sessões, propondo futuras edições, brindando conosco madrugadas afora, nos contaminando com seu vertiginoso e genial pensamento. Para a edição deste ano havíamos combinado, nós e ele, a realização de um sonho acalentado ao longo de anos de intensa convivência e colaboração, projeto que o fomos convencendo paulatinamente a topar: a organização de uma retrospectiva tão ampla quanto possível de seu trabalho autoral, reunindo e discutindo o conjunto de seus filmes como diretor.


A mostra que partilhamos é, portanto, fruto de uma relação de aprendizado, amizade, colaboração e de impressões que se foram refazendo à medida que Raulino se reencontrava – e frequentemente se reconciliava – com seu próprio trabalho, de maneira comovida, frente à tela do Cine Humberto Mauro durante sessões do forumdoc. O primeiro dos filmes de Raulino aqui exibido foi Porto de Santos (1978), ao final do qual ouvimos de um lacrimoso Raul: “a última vez em que vi o filme foi há dezoito anos. Estou sinceramente tocado”.


O mesmo foi se repetindo a cada edição, quando embasbacados assistíamos, a seu lado, filmes como O tigre e a gazela (1976), o Inventário da rapina (1986), novamente Porto de Santos e Jardim Nova Bahia (1971), Lacrimosa (1970). E, como se tivéssemos também nós, espectadores, de nos aproximarmos aos poucos da forma – ainda hoje marcadamente inventiva – do pensamento, do posicionamento político e humano que os filmes de Aloysio nos revelavam, fomos conhecendo cada título de sua obra, apresentada em pequenas medidas a cada vez como um mote para tê-lo conosco por mais um ano.


Nos apaixonamos por Raulino e por seu estupendo trabalho. Juntos, gestamos essa retrospectiva, finalmente acertada por ocasião do último festival, encerrado por Lacrimosa… – primeira exibição pública do filme em décadas e depois de seu restauro (“aquele serzinho lacrimoso renasceu no meio de vocês”, a.r.). Uma sala repleta, aplaudindo o mestre e o grande artista que ele é, assim foi nosso último encontro, assim se encerrou o forumdoc em 2012. Depois de conversas trocadas à distância (lembro-me de um telefonema em pleno reveillon), entusiasmados iniciamos, contando com a colaboração de Jean-Claude, a tarefa de revisitarmos, desta vez em conjunto, seus filmes como autor. Tivemos que completar a empreitada.2 Aqui estamos, teremos o privilégio. Que viva o gigante Aloysio Raulino! “Voam alto os pássaros que sabem o céu que lhes cabe.”3


O conjunto de filmes que compõem a mostra foi o mais abrangente quanto nos foi possível reunir, pois parte de seu trabalho encontra-se indisponível por problemas de conservação e disponibilidade de cópias, situação em muito agravada pela dificuldade atual de acesso a obras depositadas nas instituições de preservação no país. Assim, Raul, faremos como combinamos e o faremos de toda forma e da maneira possível. Certamente, aquém do que autor e obra merecem, mas iniciamos a tarefa. As entrevistas publicadas e o relato fílmico afetivo realizado por Bruno Vasconcelos exibido na sessão de abertura presentificam e atualizam o posicionamento de Raulino frente ao mundo e sua forma de trabalhar que tanto admiramos, um operário do cinema como ele dizia. “Operário-pensante”, o escuto agora… Às entrevistas, seguem-se textos que jogam luz sobre seu trabalho como diretor, ainda pouco conhecido e sobre o qual tão pouco se escreveu. Agradecemos aos autores dos ensaios, muitos deles escritos especialmente para o catálogo forumdoc.bh.2013 e que, junto à mesa de debates e sessões comentadas realizadas por ocasião da mostra, iniciam um trabalho de reflexão urgente sobre sua obra.


Notas:
1. João Dumans, Mostravídeo Itaú Cultural, 2011.
2. Difícil sem ele, Aloysio partiu em abril.
3. Publicamos, anexa ao catálogo, uma separata com hai kai de autoria de Aloysio Raulino, na qual este também se inclui.


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