Filmes apresentados no forumdoc.bh propõem reflexões estéticas e políticas sobre o cinema contemporâneo e acerca da noção de autoria

por Júnia Torres e Ana Carvalho

Documentário com direção coletiva, Suma Quamaña recupera a participação dos povos indígenas e camponeses bolivianos no processo da Assembleia Constituinte

Publicado no jornal Estado de Minas em 03/12/11 no caderno Pensar

Alargando o conceito de cinema para além do espetáculo encontramos um movimento contemporâneo e profícuo da expressão humana por meio de imagens e sons traduzidos em obras e experiências fílmicas realizadas distante dos estúdios e dos roteiros e dentro das florestas e sobre os altiplanos, um cinema “não profissional”, produzido longe das universidades, dos saberes tecnicizantes e próximos de formadores que são, antes de tudo, sujeitos politicamente situados.

Historicamente, este cinema nasce no contexto de aparecimento dos primeiros centros de formação e produção audiovisuais comunitárias, nos anos 1980 e 1990, nos processos de redemocratização dos países da América Latina, do fortalecimento dos movimentos populares e da luta pelo reconhecimento dos direitos das minorias excluídas, urbanas, rurais e indígenas. Sem o aparato de máquinas e homens outrora mobilizados para produzir o que se moldou, em uma perspectiva evolutiva, como “a sétima arte”, jovens indígenas apropriam-se de uma tecnologia disponível e barata, de câmeras leves e de um saber que pode ser compartilhado a favor de um cinema que se faz, felizmente, “menor”.

Nomear este conjunto de filmes como “cinema” é antes trazê-los para a companhia do que nos é mais caro – estética e politicamente – produzido pela imaginação ou fabulação humana mediada por imagens e sons. É estender o conceito de cinema para mais distante de nós para aproximá-lo de outros, de formas a serem sempre experimentadas, menos montadas, inacabadas, alegóricas, potentes.

Um cinema em perspectiva, no qual o lugar de onde vêm os filmes importa mais que – ou tanto quanto – sua forma. Esse é um cinema pelo qual estamos particularmente interessados. Um cinema que sirva para colocar em outros termos um problema que Jean-Claude Bernardet situa no contexto das filosofias da alteridade: “Acredito que a filosofia da alteridade só começa quando o sujeito que emprega a palavra ‘outro’ aceita ser ele mesmo um outro se o centro se descolar, aceita ser um ‘outro’ para o ‘outro’’’.

Um cinema que vem, nas palavras de Ruben Caixeta Queiroz, “renovar as lutas políticas a partir da questão tecnológica e da qualificação dos índios para um trabalho decisivo no capitalismo cognitivo: a produção de imagens”.

Atravessados e movidos pelo desejo de compartilhamento da imagem do outro, dos gestos políticos e relações sociais engendrados nas comunidades, contra o discurso autoritário e totalizante sobre as sociedades indígenas, estes grupos, tais como o Chiapas Media Project/Promedios e Ojos del Tigre no México, Cefrec/Caib, na Bolívia, o Vídeo nas Aldeias, no Brasil, entre outros, produziram, em estreita parceria com cineastas e comunidades indígenas, filmes que suscitaram questões e gestaram outros filmes, processos de formação e realizações que ofereceram aos indígenas meios de dizer sobre seu pensamento, seu povo e suas relações com o mundo.

Filmes que revelam mundos, corpos e espíritos que se apresentam e se substantivam na imagem e, ao mesmo tempo, apontam para imaginários, pensamentos e estruturas invisíveis que se encontram fora dela. Um cinema compartilhado em seu pensamento e tessitura: o vídeo como instrumento de expressão de uma coletividade.

Linha de fuga Trazendo um filme para o diálogo que reivindicamos, afirmamos que devemos ver Film socialisme, de Godard, seguindo a entrevista na qual o cineasta declara a morte do autor, não apenas como uma metáfora da Europa – um navio de descontentes envelhecidos boiando à deriva em sua própria história –, mas como um manifesto em favor de “uma nova república de imagens” – livre do domínio morto da propriedade corporativa e das leis de propriedade intelectual. Este novo cinema será recortado e colado em um mundo onde os direitos do autor em pouco tempo passarão a ser vistos como tão medievais quanto o droit du seigneur.

Em Film socialisme, a linha de fuga possível parece ser traçada por uma jovem negra de fala francesa, com uma câmera na mão e uma observação atenta ao nosso entorno, um posto de gasolina… Acreditamos que nesse gesto discreto do filme, o diretor nos coloca na perspectiva de sermos esse “outro para o outro”, do qual falávamos acima.

Um modo de fazer cinema que dilui a autoria, que não está somente ligado à produção do filme em si, mas, sobretudo, ao processo que engendra: há pessoas que filmam, há pessoas que orientam essas filmagens, há aqueles que são filmados, há o acontecimento que se materializa na imagem, as histórias, corpos e espíritos, que se reencontram nas narrativas. Há a comunidade. São filmes que se sustentam e só podem existir no diálogo intenso entre os membros dessa comunidade e, também, na cooperação com não indígenas (formadores politicamente situados). Expressar a diferença na constatação da diferença. Alcançar o outro na impossibilidade de alcançar o outro. O cinema como encontro do diverso. Geografias múltiplas.

Ao considerarmos as vastas possibilidades colocadas por essa “nova república das imagens”, nos deparamos com algumas das questões que atravessam o conjunto de filmes apresentados na mostra Cinema dos povos originários Bolívia/México, exibida no forumdoc.bh.2011: autoria e processos coletivos de realização, video-ativismo e filmes-rituais, metodologias de formação e novas estruturas de comunicação e circulação, constituição do olhar e apropriação dos gêneros cinematográficos, o problema posto ao conceito de representação pela autorrepresentação e pelo valor da performance mesma no momento da filmagem, o colocar em cena o próprio gesto de filmar ele mesmo sendo o cinema.

Com tais novos filmes dá-se a ver que há usos sociais do vídeo sob novas perspectivas que escapam a nossa possibilidade de os apreender nas salas de cinema: filmes voltados para as próprias comunidades, de circulação restrita e interna, material não traduzido, não editado, ou não editável (quando não há intenção de reduzi-lo às elipses da montagem que não cabem no tempo do ritual), material muitas vezes gravado para logo ser apagado, em que a performance de colocar em cena o corpo que filma já seria, ela mesma, uma das formas deste novíssimo cinema.

Um cinema encarnado, comprometido, rasurado, que se quer impuro, inacabado, que engendra novos filmes, paisagens e resistências.

Júnia Torres e Ana Carvalho são coordenadoras do forumdoc.bh

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