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ensaios

A Etnologia e o Cinema de Jean Rouch e Germaine Dieterlen

Homenagem-retrospectiva apresentada por Philippe Lourdou e Marcus Freire

Até o começo de 1999, quem assistia às sessões de cinema sábado pela manhã, na Cinémathèque Française (Palais de Chaillot), ou quem assistia anualmente as edições do Bilan du Film Etnographique, se deparava com a figura e o pensamento incansável, crítico e sincero, inteligente, de Germaine Dieterlen. Ao lado dela, quase sempre, estava também o incansável Jean Rouch, sem dúvida o mais notável cineasta documentarista de todos os tempos, que soube unir tão bem e de forma coerente tudo aquilo que Robert Flaherty e Dziga Vertov manifestaram por meio de imagens, palavras e sons. Jean Rouch, este homem que nasceu no ano da revolução soviética, 1917, ainda encontra forças para viajar à África e lá reencontrar os amigos e realizar filmes. Germaine Dieterlen, que completaria 100 anos em 2003, morreu no final de 1999. Mas seu olhar e suas palavras continuarão por muito tempo ressonando e refletindo nas vozes e nos rostos daqueles que conviveram com ela. O Festival do Filme Documentário e Etnográfico de Belo Horizonte pretende ser um modesto espaço para a circulação dessas vozes, cores e sons vindos da África, passando por Paris, traduzidos e (re)interpretados pelo olhar desses dois etnólogos e cineastas. O nome de Germaine Dieterlen se confunde com aqueles dos mais importantes etnógrafos franceses, como Marcel Griaule, se confunde, na verdade, com a própria etnografia francesa. Michel Izard (no Dictionnaire de l'ethnologie et de l'anthropologie) relata sua trajetória intelectual: diplomada na École Pratique des Hautes Études (1940) e na École Nationale des Langues Orientales (1943, 1944), doutora em Letras (1949), G. Dieterlen começa sua carreira como colaboradora benevolente no Musée d'Ethonographie do Trocadéro, onde encontra Marcel Griaule. Em 1936-1937 e 1938-1939, ela participa da quarta e da quinta missões organizadas por esse etnólogo. Quando da sua segunda pesquisa de campo na África, conhece e trabalha com os Dogon do Sudão da França (atual Mali). Após a guerra, a partir de 1946, ela retorna regularmente ao campo e consagra suas primeiras investigações pessoais ao estudo do sistema religioso dos Bambara, de onde retirará os dados de sua tese principal, Essai sur la religion Bambara, de 1951 (sobre esse mesmo povo, nesta retrospectiva, o forumdoc.bh.2000 estará apresentando o filme Le Dama d'Ambara (1974), co-realizado por J. Rouch e G. Dieterlen).

O interesse de G. Dieterlen pela sociedade Bambara não cessará, mas, a partir de 1949, ela passa a trabalhar sobretudo com os Dogon de Sanga, em estreita colaboração com Griaule. Após a morte deste etnólogo, em 1965, G. Dieterlen prosseguirá uma investigação sistemática da cultura dogon, a partir da qual ela abre inúmeras vias de pesquisa. Nessa perspectiva, o estudo das representações da pessoa, abordado em 1947 a propósito dos Bambara e objeto de um colóquio organizado por Dieterlen em 1971, em Paris, significa uma das mais importantes contribuições para a antropologia contemporânea. Em 1966-1973, ela colabora com Jean Rouch na realização de uma série de filmes consagrados ao ciclo cerimonial dogon do Sigui. Esse ritual é uma grande festa onde se comemora a invenção da Morte. Ele se estende por mais de sete anos, mas acontece apenas a cada sessenta anos. Jean Rouch, ao contar os cortes que os Dogon fazem durante cada cerimônia numa grande máscara oculta numa caverna, descobriu que esse ritual começou há 600 anos atrás! Quase nada mudou! E o público do forumdoc.bh.2000 terá oportunidade de ver o ritual na versão condensada em duas horas no filme Sigui Synthèse (1981).

Na revista Filme Cultura (1971), Jean Rouch conta um pouco da sua trajetória, da Engenharia à Etnologia e ao Cinema:

“Pensava em viajar com uma equipe de técnicos em 35mm, filmar tudo aquilo que imaginava e outras coisas. Mas acabei viajando com apenas dois amigos, Pierre Ponty e Jean Sauvy, depois de vendermos tudo que tínhamos e comprarmos uma velha câmera Bell & Howell 16mm. Na África, fizemos uma expedição pelo rio Niger, de canoa, descendo até o Oceano Atlântico. Daí resultou meu primeiro filme, Au Pays de Mages Noirs, que trata da técnica e do ritual da caça ao hipopótomo entre os Sorkho, pescadores songhai do rio Niger… Não sou etnólogo de formação. Sou engenheiro de pontes. Durante a Segunda Guerra Mundial fui preso com dois amigos. Depois que fomos postos em liberdade, tivemos que ir para a África Ocidental, como engenheiros. Foi assim que conheci o Niger. Expulso da região pela Administração Colonial, fui enviado pela polícia francesa a Dakar, “como turista”. Quando voltei à África, anos mais tarde, por minha própria conta, passei a representar para os africanos uma vítima do regime colonial. Esta é a razão que faz com que eu possa, mais que qualquer outro cineasta europeu, trabalhar livremente na África, ter um diálogo direto com os africanos. Isto é, eu os insulto e eles a mim, tudo como entre velhos amigos. Damouré Zika é um velho amigo, que conheci há trinta anos. Fizemos todos os filmes africanos juntos. É um velho amigo com o qual não tenho nenhum problema. Quando ele vai à França, hospeda-se em minha casa; quando vou à África, fico na casa dele. Nossa amizade é muito sólida. Ele tem cinco mulheres, que me emprestaria se eu as quisesse… Quando comecei a fazer documentários, por volta de 1947, pretendia partir, mais tarde, para ficção. Mas encontrei muitas dificuldades econômicas. Depois, não me interessava dirigir filmes tipo Paysans Noirs (conhecido na África como Famoro, le tyran), produzido naquela época por Georges Régnier com a ajuda de uma equipe de dez técnicos e a supervisão da missão etnográfica Ogooué-Congo. Foi a primeira fita de ficção feita na África e mostra coisas como um administrador colonial libertando nativos de Alto Volta do domínio de um déspota negro e trazendo-lhes de volta “a felicidade e a prosperidade”. Somente em 1953 é que utilizei elementos ficcionais em Jaguar e Les Maitres Fous. A maioria dos diretores — e especialmente os norte-americanos —  encara a África como pretexto para aventuras comerciais, explorando o canibalismo (mito dos Mau-Mau), o exotismo (mito de Tarzan) ou misticismo (mito das bruxarias e ritos bárbaros). Mas existe gente honesta, como Lionel Rogosin, que fez em 1959 Come Back to Africa, sobre o problema do apartheid na África do Sul, e Alain Resnais e Chris Marker, que focalizaram em Les statues meurent aussi a perda de sentido de uma arte negra conservada em museus. Também Joris Ivens mostrou-se interessado pelos verdadeiros problemas africanos ao realizar em 1962, no Mali, Demain à Nanguila, mostrando a possível evolução de uma comunidade camponesa no contexto da Nova África.

Nesse fragmento de entrevista, podemos notar a cumplicidade de Jean Rouch não só com alguns dos temas de seus filmes (a África no contexto do colonialismo), mas também com seus personagens. O seu documentário não é algo impessoal sobre a “cultura” do outro, onde desaparecem os sujeitos que vivenciam esta cultura e a recriam na frente da câmera. Criador e divulgador de termos como “cine-transe”, “cinema-verdade”, Rouch sempre produziu um cinema reflexivo, expressivo da relação que ele mantém com as pessoas filmadas, portador da voz e do ruído do outro, enfim, um tipo de cinema que não pretende revelar a realidade que estaria na frente da câmera, mas também não somente aquela que está por trás da câmera ou da voz em off. A verdade do cinema de Jean Rouch é aquela de Vertov e Flaherty, é a verdade do cinema e não a dos poderosos da ficção.

Jean Rouch inventou tanta coisa no cinema que seria difícil enumerá-las. Mas, como a equipe de organização do Festival do Filme Documentário de Belo Horizonte — diante da selvageria televisiva e da vídeo-arte, ambas insensíveis ao som ambiente e à voz das pessoas filmadas, insensibilidade que se fez presente na maior parte dos filmes inscritos na mostra competitiva — está pensando em editar um manifesto sobre algumas regras antigas do filme documentário, expostas já por Vertov e por Flaherty (para que não a esqueçamos e façamos delas nossa luta contra o embuste do mercado cultural), sugiro o que disse Rouch sobre a música, no seu texto em homenagem aos pais fundadores do cinema documentário:

As bandas de música originais foram (e são ainda) a base sonora da maior parte dos filmes documentários (e todos os filmes etnográficos dos anos 1950). Se trata, mais uma vez, de “fazer cinema”. Eu percebi rápido (1953) a heresia desse sistema, projetando aos caçadores de hipopótamos do Niger o filme Bataille sur le grand fleuve, rodado com eles dois anos antes. No momento da perseguição do hipopótamo, eu tinha montado, sobre a banda sonora, um emocionante “ar de caçadores”, música de um instrumento de cordas sobre um tema de perseguição, que me parecia particularmente conveniente a esta sequência. O resultado foi deplorável: o chefe dos caçadores me solicita suprimir esta música, pois a perseguição deve ser absolutamente silenciosa. Depois desta aventura, eu prestei muita atenção na utilização da música no filme, e eu tive convicção de que, mesmo no cinema de espetáculo, se trata de uma convenção totalmente teatral e ultrapassada: a música embrulha, adormece, faz passar cortes mal realizados, dá um ritmo artificial às imagens que não o têm e não o terão jamais, em resumo, é o ópio do cinema (infelizmente e a televisão se apropriou da mediocridade desse procedimento)... Em compensação, viva a música que sustenta realmente uma ação, música profana ou ritual, ritmo do trabalho ou da dança.

Outra grande inovação no trabalho de Jean Rouch é o plano sequência, que fez dele um precursor da maior revolução do cinema: a Nouvelle Vague francesa. Assim é que, num filme de ficção de 1966, Gare du Nord, Rouch registra, num único plano sequência, o diálogo de um casal num apartamento, no café da manhã que, em seguida, desce um elevador e se dirige à rua. Este tipo de cinema, de estratégia narrativa — estratégia, infelizmente, tão em desuso pelo abuso dos efeitos de corte, fusões de imagem e slow possibilitados pelo vídeo (mais ainda agora, na era da edição não-linear) — poderá ser apreciada pelo público do forumdoc.bh.2000 na sessão consagrada ao filme Les Tambours d’ Avant (1971).

Jean Rouch realizou vários filmes sobre os seus amigos e junto com os seus amigos africanos, franceses, americanos, japoneses: Damouré Zika, Margaret Mead, Edgar Morin, Joris Ivens, Taro Okamoto, Manuel de Oliveira… Jean Rouch quis realizar, mas nunca começou este projeto, três filmes no Brasil com o seu amigo Thomaz Farkas. Porém, a sua maior companheira das salas de cinema, das bibliotecas, das pesquisas na África, do Comité du Film Ethnographique foi, sem dúvida, Germaine Dieterlen.

O forumdoc.bh.2000 dedica nesta edição uma homenagem a esses dois etnólogos e cineastas que atravessaram o século, formaram estudantes, pesquisadores e realizadores do filme etnográfico que hoje se encontram espalhados pelo mundo. Apresentando filmes essenciais realizados pelos homenageados, estarão conosco Philippe Lourdou e Marcius Freire, pesquisadores e realizadores que se inserem na tradição Rouch-Dieterlen. Como se verá, não pretendemos realizar uma mostra completa de seus filmes, e optamos por selecionar os títulos menos conhecidos e que enfatizam de forma vigorosa a relação estreita entre etnologia e cinema, o desejo de conhecer e penetrar no mundo do outro, nas suas paisagens sonoras e corporais, nos rituais, ouvir esse outro, dar a ele a palavra, mas também tomá-la para construir um objeto de conhecimento e arte: o filme etnográfico. Nesse sentido, deixamos para uma próxima oportunidade, quem sabe, para o próximo ano, a exibição dos filmes de Rouch que são considerados por ele mesmo como “ficções etnográficas”: Moi, un noir (1958), La pyramide humaine (1959), Jaguar (1967), La chasse au lion à l’arc (1965), Petit à petit" (1970). Cocorico, monsieur Poulet (1974). Estes e outros filmes revelam aquilo que Jean Rouch chama de antropologia compartilhada: confiança no imprevisto, recurso do psicodrama, intervenção no mundo das pessoas filmadas, provocação, interação, tudo colocado para favorecer a participação do outro, fazendo-o revelar seu imaginário ao cineasta, ao espectador e a ele mesmo.

Embora menos conhecidos, os filmes da retrospectiva-homenagem Rouch-Dieterlen revelam profundas inovações na forma de captação e tratamento da imagem, bem como uma impressionante densidade etnográfica: ritos de possessão, ritos funerários, ritos para fazer chover, dança e música dos povos de tradição oral. Graças ao apoio do CNRS - Audiovisuel e do Comité du Film Ethnographique, o público do forumdoc.bh.2000 terá a oportunidade de assistir esses filmes no formato original como Jean Rouch gostaria de os mostrar: 16mm. 

Currículo

Ruben Caixeta de Queiroz

Professor de antropologia da UFMG, pesquisa junto aos povos Karib desde 1994. Pesquisador 2 do CNPq.

Como citar este artigo

QUEIROZ, Ruben Caixeta de. A Etnologia e o Cinema de Jean Rouch e Germaine Dieterlen. In: Catálogo do forumdoc.bh.2000. Belo Horizonte: Filmes de Quintal, 2000. p. 12-14.