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ensaios

Sobre o cinema na Melanésia e no Pacífico

traduzido por Ana Carvalho

Há quem afirme que uma indústria local de cinema não floresceu no Pacífico porque nossa população é insignificante para uma distribuição rentável.

O cinema como um processo social é também, e em grande parte, determinado por variáveis econômicas. No entanto, um olhar mais atento sobre a realidade dos países do Terceiro Mundo revela que suas condições econômicas e performance são, elas próprias, influenciadas pelas heranças coloniais, condições pós-coloniais e pela exploração econômica do imperialismo, contra a qual muitos destes países estão lutando para se libertarem. 

Para os povos da Melanésia e do Pacífico é difícil imaginar um futuro sem a negação do acesso aos espaços de discussão pública da grande mídia. Ainda assim, essa mídia influencia diversos níveis das políticas públicas, que ao final afetam a vida das pessoas comuns, o pobre e o marginalizado, e ameaçam a manutenção de uma realidade de exploração.

A negação populista dos direitos humanos básicos e da autodeterminação dos povos, apoiada por uma falsa representatividade nos fóruns públicos, é uma forma de tornar trivial a luta dos povos do Terceiro Mundo. E, reforçado por caricaturas que apresentam nosso povo como criaturas exóticas, incapazes de prevenir desastres e o nosso próprio desaparecimento, o direito moral e a “obrigação” de nos explorar tornam-se justificados. E, no entanto, somos humanos. Com os mesmos direitos de cometer erros, aprender e progredir como qualquer outro ser humano em qualquer outro tempo e espaço sobre a Terra.

Quantos melanésios tentaram se tornar cineastas na Melanésia e no Pacífico e quantos não tiveram que abandonar o sonho impossível devido às condições econômicas que determinam nossa produção cinematográfica desde os anos 1980 até os dias de hoje? Poucos de nós seguiram sozinhos. Aprendemos a caminhar levando na bagagem apenas nossas ideias e sonhos. Procuramos formas alternativas de nos inserir num esquema de produção que não nos causasse grandes problemas financeiros, que ao mesmo tempo nos mantivesse atuantes.

Aprendemos a não nos deslumbrar com as novas e caras tecnologias audiovisuais. Aprendemos a esperar, enquanto víamos as grandes produtoras australianas ocuparem nosso litoral para rodarem seus filmes e contarem sua versão das histórias sobre o nosso povo. Esperamos pelos dias em que poderíamos escrever nosso próprio testemunho e validar nossa própria existência e memórias. Esperamos pelo nosso direito básico de auto-representação nos fóruns públicos do planeta.

A produção cinematográfica ocidental na Papua Nova-Guiné Melanésia pode ser dividida em quatro Eras:

1. A era propagandística do período da Guerra Fria.

(Películas em P&B do News Reel – produzidos pela Filmes Austrália como relatório para as Nações Unidas sobre a situação no território britânico da Nova Guiné).

2. A era romântica dos anos 1970 e 1980. 

Incluindo Kama Wosi, Trobriand Cricket, produzidos por realizadores ligados ao movimento hippie e ao movimento esquerdista “PUSH”, na Austrália.

3. A era da Antiga Colônia dos anos de 1980 até o presente.

Filmes incluindo First Contact e outros que parecem lamentar um sonho perdido do Paraíso. Que Paraíso? Paraíso de quem?

4. Kantri Bilong Yumi – de Séverin Blanchet

Kantri Bilong Yumi é um dos mais revolucionários documentários realizados sobre a Papua Nova-Guiné dirigido por um cineasta ocidental. O filme apresenta as aspirações da Papua como nação, a partir do pensamento e reflexões de povos locais.

Este ano, Papua Nova-Guiné finalmente inaugurou sua própria estação de TV e produções televisivas cinematográficas locais estão surgindo.

A ausência de um envolvimento ativo por parte de nossos profissionais locais da área de produção cinematográfica e televisiva significa que estes profissionais iniciarão suas atividades com um baixo padrão em termos de qualidade técnica e virtuosidade, porém, somente o tempo e a prática darão respostas a estas considerações.

Pessoas como eu continuarão a fazer filmes na Papua Nova-Guiné. Fazemos filmes que contribuem para a reconstrução da autoestima do nosso povo –  pós “Contato” , pós “Segunda Guerra Mundial”, pós opressão colonial. Temos a responsabilidade de resgatar a autoconfiança de nossa gente.  A televisão é como um monstro que se alimenta de histórias de sofrimento da nossa gente. Mas nós, no Terceiro Mundo, não podemos continuar passivos frente à criação de uma televisão pública que transforma em entretenimento as realidades de nosso sofrimento, nosso sangue e nossas lágrimas. Temos a responsabilidade de cicatrizar as feridas de nosso povo traumatizado.

Como realizador melanésio aprendendo a aceitar as realidades econômicas que negam minha voz, me libertei a partir das palavras de Paulo Freire, em a Pedagogia do Oprimido, e do trabalho de Augusto Boal, com o Teatro do Oprimido. E aprendi a lidar com a opressão que nega a meu povo uma voz verdadeira no espaço midiático. Assim, quando comecei a experimentar o cinema em Crater Moutain Story, tinha um Paulo Freire imaginário ao meu lado, a quem consultava sempre, na tentativa de criar meios singelos de garantir a liberdade de um povo em risco de perder seus modos de vida e suas heranças.

Currículo

Martin Maden

Cineasta, produtor e escritor da Papua Nova-Guiné.

Como citar este artigo

MADEN, Martin. Sobre o cinema na Melanésia e no Pacífico. Tradução de Ana Carvalho. In: forumdoc.bh.2008: 12º Festival do filme documentário e etnográfico – fórum de antropologia, cinema e vídeo. Belo Horizonte: Filmes de Quintal, 2008. p. 175-176 [Impresso]; p. 177-178 [Online].